quarta-feira, 2 de julho de 2014

As seitas judaicas nos tempos de Jesus


por Cesar Rios
Flávio Josefo é testemunha privilegiada do contexto religioso na Judeia do século I d.C.. Ele não só conviveu de perto com cada um dos grupos judaicos ali presentes, como os experimentou na prática, conforme diz em sua autobiografia (Vida de Flávio Josefo, 10ss). Josefo é um judeu de família sacerdotal, que e vivia em Jerusalém antes de ser levado a Roma como escravo, e que, depois disso, se tornou um grande historiador dedicado a escrever em grego sobre os judeus. Conhecer minimamente o que ele diz sobre os saduceus, fariseus e essênios é um pequeno, mas importante passo. O Novo Testamento não nos dá informações além das imprescindíveis para seu próprio (e inigualável) interesse. Saduceus e fariseus, por sua vez, não nos legaram testemunhos escritos deles mesmos. E não temos absoluta certeza sobre a relação entre muitos dos textos encontrados em Qumran e os essênios (assunto para o futuro).

Pois bem, a seguir ofereço uma pequena seleção de trechos em minha própria e apressada tradução. Espero que lhe seja útil.

Observo que o primeiro trecho não apresenta propriamente uma seita judaica, mas um movimento revoltoso. Josefo chama seu líder, um certo galileu chamado Judas (que não deve ser conhecido com nenhum dos dois Judas dos Evangelhos), de sofista. Logo, se referirá a saduceus, fariseus e essênios como filósofos. Fica evidente que ele apresenta essas seitas (haíresis, termo que não tem nenhuma conotação pejorativa) em oposição ao referido movimento revoltoso. Para ressaltar essa impressão, basta lembrar da insistente oposição entre sofista e filósofo em Platão.

Seguem os trechos Guerra dos Judeus (aprox. 75 d.C.):


Τῆς δὲ Ἀρχελάου χώρας εἰς ἐπαρχίαν περιγραφείσης ἐπίτροπος τῆς ἱππικῆς παρὰ Ῥωμαίοις τάξεως Κωπώνιος πέμπεται μέχρι τοῦ κτείνειν λαβὼν παρὰ Καίσαρος ἐξουσίαν. ἐπὶ τούτου τις ἀνὴρ Γαλιλαῖος Ἰούδας ὄνομα εἰς ἀπόστασιν ἐνῆγε τοὺς ἐπιχωρίους κακίζων, εἰ φόρον τε Ῥωμαίοις τελεῖν ὑπομενοῦσιν καὶ μετὰ τὸν θεὸν οἴσουσι θνητοὺς δεσπότας. ἦν δ᾽ οὗτος σοφιστὴς ἰδίας αἱρέσεως οὐδὲν τοῖς ἄλλοις προσεοικώς.


Sob o reinado desse [Arquelau], certo homem galileu, de nome Judas, começou a persuadir os habitantes do país para a revolta reprovando-os: “se eles se submetem a pagar tributo aos romanos, suportarão senhores mortais junto de Deus”. Esse homem era um mestre (sofista) de sua própria seita, e não tinha semelhança com os outros. B.J. II 8.1


Τρία γὰρ παρὰ Ἰουδαίοις εἴδη φιλοσοφεῖται, καὶ τοῦ μὲν αἱρετισταὶ Φαρισαῖοι, τοῦ δὲ Σαδδουκαῖοι, τρίτον δέ, ὃ δὴ καὶ δοκεῖ σεμνότητα ἀσκεῖν, Ἐσσηνοὶ καλοῦνται, Ἰουδαῖοι μὲν γένος ὄντες, φιλάλληλοι δὲ καὶ τῶν ἄλλων πλέον. οὗτοι τὰς μὲν ἡδονὰς ὡς κακίαν ἀποστρέφονται, τὴν δὲ ἐγκράτειαν καὶ τὸ μὴ τοῖς πάθεσιν ὑποπίπτειν ἀρετὴν ὑπολαμβάνουσιν.


Pois, entre os judeus, se filosofa de três formas. De uma são adeptos os fariseus, de outra os saduceus, e há a terceira, que também parece exercitar a seriedade. [Estes últimos] são chamados essênios, os quais são judeus com relação à etnia, e são mutuamente amigáveis, mais do que os outros. E eles se afastam do prazer como uma coisa má, e consideram ser uma virtude o autocontrole e o não se submeter às paixões. B.J. II 8.2


Δύο δὲ τῶν προτέρων Φαρισαῖοι μὲν οἱ μετὰ ἀκριβείας δοκοῦντες ἐξηγεῖσθαι τὰ νόμιμα καὶ τὴν πρώτην ἀπάγοντες αἵρεσιν εἱμαρμένῃ τε καὶ θεῷ προσάπτουσι πάντα, καὶ τὸ μὲν πράττειν τὰ δίκαια καὶ μὴ κατὰ τὸ πλεῖστον ἐπὶ τοῖς ἀνθρώποις κεῖσθαι, βοηθεῖν δὲ εἰς ἕκαστον καὶ τὴν εἱμαρμένην: ψυχήν τε πᾶσαν μὲν ἄφθαρτον, μεταβαίνειν δὲ εἰς ἕτερον σῶμα τὴν τῶν ἀγαθῶν μόνην, τὰς δὲ τῶν φαύλων ἀιδίῳ τιμωρίᾳ κολάζεσθαι.


E [restam] as duas primeiras. Os fariseus, que parecem com diligência explicar as coisas que são conforme a lei, e que separaram a primeira seita (haíresis), atribuem todas as coisas a Deus e ao destino; e o praticar a justiça ou não reside, em grande parte, nos [próprios] seres humanos, mas também o destino vem ao auxílio de cada um; toda alma, por um lado, é imortal, somente a dos bons, por outro lado, passa para outro corpo, enquanto a dos maus é castigada com uma vingança eterna. B.J. II 8.14


Σαδδουκαῖοι δέ, τὸ δεύτερον τάγμα, τὴν μὲν εἱμαρμένην παντάπασιν ἀναιροῦσιν καὶ τὸν θεὸν ἔξω τοῦ δρᾶν τι κακὸν ἢ ἐφορᾶν τίθενται: φασὶν δ᾽ ἐπ᾽ ἀνθρώπων ἐκλογῇ τό τε καλὸν καὶ τὸ κακὸν προκεῖσθαι καὶ κατὰ γνώμην ἑκάστου τούτων ἑκατέρῳ προσιέναι. ψυχῆς τε τὴν διαμονὴν καὶ τὰς καθ᾽ ᾄδου τιμωρίας καὶ τιμὰς ἀναιροῦσιν. καὶ Φαρισαῖοι μὲν φιλάλληλοί τε καὶ τὴν εἰς τὸ κοινὸν ὁμόνοιαν ἀσκοῦντες, Σαδδουκαίων δὲ καὶ πρὸς ἀλλήλους τὸ ἦθος ἀγριώτερον αἵ τε ἐπιμιξίαι πρὸς τοὺς ὁμοίους ἀπηνεῖς ὡς πρὸς ἀλλοτρίους. τοιαῦτα μὲν περὶ τῶν ἐν Ἰουδαίοις φιλοσοφούντων εἶχον εἰπεῖν.


Já os saduceus, a segunda ordem, excluem completamente o destino e colocam Deus de fora do âmbito da prática do mal ou de sua supervisão. Dizem que para a escolha dos seres humanos está disposto o mal e o bem, e que conforme o julgamento de cada pessoa é que se admite um ou o outro. E excluem também a continuidade da alma, as punições e honras do hades. E enquanto os fariseus, por um lado, são mutuamente amigáveis e exercitam a concórdia com vistas ao que é compartilhado, os saduceus, por outro lado, até no trato de uns para com os outros têm o costume mais selvagem, e o envolvimento para com seus iguais é rude como se fosse para com estranhos. Era isso o que eu tinha a dizer a respeito dos que são filósofos entre os judeus. B.J. II 8.14