terça-feira, 1 de julho de 2014

Se Jesus não era loiro, como era a aparência de Jesus?

por Cesar Rios

Os textos dos Evangelhos não nos descrevem a fisionomia de Jesus. É fatal, então, que perdure uma incerteza sobre sua aparência. E é fatal, também, que pela vontade que temos de ver, reconhecer e reproduzir imagens surgissem tentativas de retratar o Messias. Algumas chegam a ser muito curiosas, como essa de um pintor espanhol do século XVII:

La sagrada familia y el pajarito de Bartolomé Murillo


Primeiramente, um observador minimamente informado achará graça do fato de Jesus aparecer loiro e alvo como um caucasiano. Se demorar mais um instante na imagem, perceberá que Maria não é loira. "Ora, então loiro é o pai!" Suspeitará qualquer comadre do interior. Chegamos a uma conclusão aterradora: Deus é loiro!

Praticamente na mesma época, Rembrandt, o pintor holandês, tentará ser mais preciso. Considerando que Jesus era judeu, ele tentou observar atentamente os judeus de sua cidade e reproduzir seus traços característicos na imagem de um trintão que ele chamaria de Jesus. O retrato é ótimo, sobretudo pelo olhar humano, meio cansado, mas também com alguma ternura sugerida:

Cristo de Rembrandt

Pois bem, mas e se procurarmos imagens mais antigas, não encontraremos nada? Como todos sabem, não encontraremos nada antigo o suficiente para ser considerado um retrato feito na presença do modelo. Mas é pouco considerado um caso bastante significativo: os registros imagéticos encontrados em Dura-Europos. Essa cidade do início do século III d.C., situada no sul da atual Síria e escavada somente entre 1920 e 1930, guarda imagens importantíssimas, pois ali havia uma construção cristã e uma sinagoga, ambas bem preservadas.

Vamos direto ao que importa. Há representação de Jesus na tal construção cristã? Sim. E como Jesus aparece lá? Veja você mesmo:

Jesus na cura do paralítico que carrega a cama

 Jesus andando sobre as águas

Como você pode ver, não há muito para se ver. Esses que podem ser os mais antigos desenhos de Jesus não nos revelam praticamente nada sobre seu rosto. Resta-nos um recurso somente. Podemos deduzir que se os judeus de Dura-Europos fossem representar cenas da Bíblia em sua sinagoga, representariam os personagens antigos com a aparência deles mesmos, até para marcar certa continuidade. E podemos supor, igualmente, que esses judeus de Dura-Europos, no século III, não seriam muito diferentes dos judeus da Galileia do século I. Afinal, a distância temporal e geográfica não é tão grande. Vejamos imagens encontradas na tal sinagoga:


Esdras lendo o Livro da Lei

Cena de Ezequiel: o vale de ossos secos

Parece que Rembrandt não errou de muito. Resolvido o dilema? Certamente que não. Nosso percurso só nos levou a uma mínima aproximação, um pouco mais precisa que a popular imagem híbrida de um certo Jesus Pitt (um certo Jesus mais parecido com Brad Pitt) que tanto vemos em mensagens espirituosas cristãs. Contudo, não fomos além das hipóteses.

E voltamos a lembrar do início do problema: os textos dos Evangelhos se silenciam a esse respeito. E termino com mais uma suspeita: é provável que se silenciem sobre isso porque isso não deveria ser, na perspectiva dos evangelistas, minimamente importante para as comunidades que se formavam e que se formariam no futuro. Ou pode ser também, algo que me parece provável até por eventos narrados, que Jesus fosse tão semelhante a todos os demais que não era preciso descrevê-lo. Era um como todos, confundido entre os muitos, sem beleza descomunal ou feiura impressionante.


Para prosseguir:
Conheça mais sobre Dura-Europos: http://media.artgallery.yale.edu/duraeuropos/dura.html