sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Josefo Exegeta: História e Memória, artigo de Alex Degan (e muito mais do mesmo autor)

Josefo Exegeta: História e Memória começa com uma breve reflexão sobre memória e historiografia. Quando chega a tratar de Josefo mesmo, parece que falta algo. Fiquei com vontade de que o autor tivesse escrito mais por si mesmo, a partir de uma leitura própria da obra do historiador. De qualquer forma, alguns pontos interessantes são levantados. A leitura vale a pena.

Publicação: Revista de História (USP), 2010.

Autor: Alex Dega

Para acessar o artigo, clique AQUI.

Bom, como fiquei interessado no pensamento de Degan, e suspeitando que ele teria mais a dizer, fiz uma pequena busca e, vejam só, encontrei muita coisa. O Alex Dega estuda Josefo desde sua graduação. Temos dele, online, pelo menos mais dois artigos:

As lágrimas e o historiador: uma leitura de Guerras Judaicas (Aqui, o autor já aborda mais de perto o texto mesmo. Que bom!)

Batalhas da Memória: uma proposta de leitura de Flávio Josefo (A capacidade de reflexão teórica do autor torna seus textos mais interessantes. Sem dúvida!)

E, por fim, temos a tese de doutoramento dele também disponível:


Conclusão da história: Alex Degan é, sem dúvida, um dos pesquisadores lusófonos mais dedicados à obra de Josefo. Quem tem interesse no assunto, deveria acompanhar sua produção. Por isso, deixo também o link para o currículo dele na plataforma lattes.


Flávio Josefo e a Historiografia Judaica Antiga (Artigo de André R. N. dos Santos)

Um texto simples, acessível e bom sobre Flávio Josefo e a historiografia entre os judeus. É um ótimo começo para quem ainda não se enveredou de vez no assunto.

Autor: André Ricardo Nunes dos Santos

Publicação: história e-história (site)

Para acessar o artigo completo, clique AQUI.


sábado, 23 de agosto de 2014

Sobre a pergunta "Jesus pregou o evangelho?" / Uma possível reconsideração sobre o termo "evangelho" em Mc 1:1


Se você entende inglês, assista o vídeo depois de ler este breve comentário. Se não entende, não se preocupe. Eu deixarei claro o que me importa aqui no texto mesmo. A questão que esses quatro senhores discutem é esta: "Jesus pregou o evangelho?" Parece uma pergunta sem sentido para quem está inserido na fé cristã. Mas não só há muito sentido, como é mesmo uma questão urgente. O fato é que estudos recentes propõem um contraste enorme entre o que lemos nas cartas de Paulo e o que lemos nas falas de Jesus nos Evangelhos. Assinalam que o que Jesus falava não tinha nada a ver com a pregação da graça levada pelo apóstolo dos gentios.* Não encontramos Jesus falando de justificação pela fé. Imagino que a questão esteja mais clara agora. O problema é que se esse for o cenário, poderíamos pensar que o Evangelho do perdão é um desenvolvimento tardio, produzido quando Jesus já estava "ausente", e sem conexão com o ensino do nazareno.

Os quatro senhores do vídeo discutem diversos detalhes deveras interessantes e pertinentes. Mas eu penso de forma bem simples, bem próxima ao que escutamos de John Piper por volta do minuto 15: Jesus não pregava de fato o evangelho em sua forma plena, como Paulo, simplesmente porque o evangelho em sua forma plena está centrado em algo que ainda estava para acontecer, sua crucificação e ressurreição. Sem esse acontecimento, o evangelho não existe enquanto algo já disponível, mas somente como algo que está tão iminente que já é, mas ainda está por chegar. (Antes de conhecer esse ótimo vídeo, eu andava pensando nesse sentido. Por isso, sugeri o mesmo em um comentário noutro blog: aqui.)

Com base nessa elocubração, eu tendo a pensar que a primeira ocorrência do termo "evangelho" no Evangelho de Marcos pode ser repensada. Diz-se geralmente que é a primeira vez que o termo aparece indicando certo "gênero do discurso" e não a boa notícia em si. Ou seja, o termo aqui já teria sido usado como o usamos frequentemente, para indicar um livro com tais e tais características, que conta fatos da vida de Jesus e alguns de seus ensinamentos. O fato se faz curioso se entendemos, como geralmente se entende, que o Evangelho de Marcos foi o primeiro a ser escrito. Eu escrevo um livro de tipo novo e já o nomeio com um nome que servirá para todo um gênero? Bom, minha hipótese é a seguinte: E se insistirmos em ler "princípio do evangelho de Jesus Cristo" não como indicando o começo do livro que está sendo escrito, mas como "princípio da boa nova de Jesus Cristo", tomando o termo "evangelho" exatamente como o tomamos em Paulo, com o significado de "boa nova", e reconhecendo que o autor reconhece que o que está por narrar em todo o livro não é o evangelho em sua plena forma, mas somente o princípio (fundamental!) dele? Se entendermos, como geralmente se entende, que as cartas de Paulo foram escritas antes, essa hipótese terá ainda mais peso.

Deixo essa hipótese como provocação. Alguém reage a ela? Fico no aguardo.

* Sobre a reconsideração também de Paulo proposta pela tal "nova perspectiva sobre Paulo" valerá outra postagem





domingo, 17 de agosto de 2014

Quem são "os judeus" (οἱ Ιουδαῖοι) no Evangelho segundo João? - Dois artigos sobre uma questão pertinente

por Cesar Rios

Quem são "os judeus" (οἱ Ιουδαῖοι) no Evangelho segundo João? Essa é sem dúvida uma pergunta instigante. É também urgente segundo alguns. Muitos temem que o autor do quarto Evangelho, o texto em si, e o cristianismo como um todo possam ser acusados de antissemitismo com base em uma leitura simples e impensada das duras colocações joaninas contra "os judeus". Sob a sombra da Shoá (evento mais popularmente chamado de Holocausto), somos quase que convocados a encontrar uma leitura que amenize e, se possível, retire qualquer gosto de oposição aos judeus como grupo étnico/religioso do Novo Testamento como um todo. No entanto, ainda que maus leitores de João tenham proporcionado um cenário propício para aquele absurdo genocídio, entendo que a questão deva ser revisitada, mas não como parte de uma agenda de reparação para com "os judeus" de hoje ou, menos ainda, o Estado de Israel. Estou certo de que devemos revisitar essa questão e repensá-la à exaustão simplesmente pela melhor compreensão que essa reflexão pode trazer a respeito de Jesus e desse maravilhoso texto que temos em nossas Bíblias. O que quero dizer é que, se empreendermos essa releitura com um objetivo previamente determinado (a absolvição dos judeus da acusação de terem sido anti-Jesus e responsáveis por sua morte sob Pilatos) e com outro objetivo subjacente também previamente determinado e, no fundo, verdadeiramente motivador (a absolvição dos cristãos da acusação de serem antissemitas e responsáveis pela morte de milhões de judeus sob Hitler), nossa releitura não fará total justiça ao texto, não alcançará o anseio do evangelista em sua integralidade, pois estará comprometida a fazer, antes, justiça à nossos próprios anseios. Jesus, João e os outros discípulos são todos "judeus". Isso é suficiente como convite (do texto mesmo!) a uma consideração mais detida da questão, sem que tenhamos que levar ao texto nossos problemas e nossos dilemas.

Pois bem, eu não me proponho a ensaiar nenhuma resposta aqui. Quero apenas apontar para duas opções completamente excludentes. Ou você gosta de uma ou da outra. Não há como conciliá-las.

Resposta 1) A crítica aos judeus é verdadeiramente direcionada às autoridades dos judeus. Isso teria surgido a partir da experiência da comunidade joanina, que supostamente teria sido excluída do convívio sinagogal pelo judaísmo a partir do suposto "concílio" rabínico de Javneh. É preciso ficar claro que essa proposta se constrói a partir da hipótese de que os eventos narrados no Evangelho segundo João têm mais relação com a comunidade em que o Evangelho foi redigido (tempo da enunciação, da narração) do que com o tempo de Jesus e dos acontecimentos relacionados com ele (tempo do enunciado, do narrado). Um bom exemplo dessa proposta está no seguinte artigo:


Resposta 2) A resposta 1 está baseada em hipóteses e reconstruções fracas, e não serve para todos os episódios do Evangelho em questão. Na verdade, o fato é que a expressão οἱ Ιουδαῖοι não deve ser lida como correspondente à nossa atual compreensão de "os judeus". Tratar-se-ia, por outro lado, de um termo relacionado complexamente com uma terra específica (Judeia) e com um povo específico dentro do amplo quadro de Israel. Para entender a restrição, deveríamos olhar não para o futuro (do narrado), que seria o tempo da comunidade joanina, mas sim para o passado, para o retorno dos exilados na babilônia e a definição de uma elite que se entendia como verdadeiramente ligada à verdadeira forma de ser "judeu", com a consequente exclusão de outros grupos, que habitavam a terra e também preservavam, em alguma forma, a fé herdada e o culto a YHWH. Esse grupo que se entendia como privilegiado era, obviamente, visto com ressalvas pelos demais. Eles tinham influência fora dos limites da Judeia, e adeptos que habitavam já na Galileia, por exemplo, mas eram estritamente centrípetos (e o Templo em Jerusalém estava no centro e era seu trunfo). Então, a crítica aos "judeus" não seria um enfrentamento com todo Israel (até porque os cristãos-judeus da comunidade joanina se entendiam como parte de Israel), mas com um grupo específico que se arrogava uma legitimidade exclusiva. Esse resumo simplificador só serve como convite, instigação. Para entender esse argumento, que está bem estruturado no seguinte artigo:


Em princípio, simpatizo-me muito com a reflexão do professor Daniel Boyarin. Tomando o Evangelho segundo João como um sistema de sentido fechado em si mesmo, isto é, considerando somente as ocorrências do termo nesse âmbito restrito, tendo a ser persuadido pela exposição. Mas ainda julgo que seria conveniente estudar o uso do termo em um espectro mais amplo de textos, para fora do Novo Testamento inclusive, testando essa nova proposta. Haveria consistência no uso do termo com esse sentido em outros autores? Se não, porque só João o utilizaria assim? Seria bem entendido? Por quem?

P.S. Se o arquivo de D. Boyarin não abrir automaticamente, faça "download" ou escolha a opção "visualizar com outro navegador". Por sinal, ele está hospedado na excelente página do prof. Eli Lizorkin-Eyzenberg, Jewish Studies for Christians.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Por que estudar os idiomas da Bíblia?


O artigo que disponibilizo é de fácil leitura e bem curto. Já tem quase trinta anos, e está certamente um pouco datado, mas, ainda que tenha pontos discutíveis, é muito útil e pertinente. No mínimo, é um excelente incentivo para o estudo das línguas originais da Bíblia. Abaixo, a referência e o arquivo, que você pode expandir para ler aqui mesmo em tela inteira ou baixar para guardar consigo:

WRIGHT, Samuel Lee. "Rebeca caiu do camelo" o por que estudar hebraico? In: Revista Teológica. Ano III, n. 5. Rio de Janeiro: Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, 1987.

domingo, 10 de agosto de 2014

A Bíblia Hebraica e a Bíblia Grega - um dia Qumran entrou nessa relação: O caso exemplar do Salmo 144/ 145

por Cesar Rios

No que diz respeito ao Salmo 144 / 145*, o Aleppo Codex, proveniente do século X d.C., concorda com o Codex Leningradensis, que é poucas décadas mais recente, e, por conseguinte, com nossas edições modernas da Bíblia Hebraica.

Como outros, esse é um salmo alfabético, isto é, cada verso (ou cada grupo de versos, noutros casos)  se inicia com uma das letras do alfabeto em sua ordem costumeira. O problema é que falta um verso com o nun que, logicamente, deveria aparecer depois do verso iniciado com mem (verso 13).


Como se vê, do mem vamos direto ao samekh. Em Qumran, contudo, entre os chamados Manuscritos do Mar Morto, encontraram um manuscrito muito mais antigo que os referidos códices, no qual consta um verso a mais entre o 13 e o 14. E o tal novo verso começa com o nun, como deveria ser. Ao saber disso, alguém pode ficar pasmo pensando que um versículo nunca antes conhecido foi achado. Não é bem isso.

Esse versículo já era muito conhecido por ter sido preservado na Bíblia Grega. Sim, ele está na edição de Rahlf, inclusive. Mas se o leitor ainda está receoso, confira, por exemplo, o Codex Sinaiticus, que é do século IV. Na imagem abaixo, o verso marcado é o que não se encontra na Bíblia Hebraica que temos, e é o mesmo (noutra língua, óbvio) que foi "descoberto" no manuscrito em Qumran:


"Fiel é o Senhor em [todas as**] suas palavras, e santo em todas as suas obras"

O fato é que estamos treinados a entender que o "texto original" (em hebraico, no caso) é mais confiável que qualquer tradução, mesmo que essa tradução esteja preservada em um documento mais de cinco séculos anterior ao documento mais antigo (até então!) do "original". No presente caso, ao menos, quem confiava na versão grega talvez estivesse sim mais correto.

Esse fato curioso é indício de algo óbvio, mas despercebido com frequência: Não podemos afirmar que os tradutores da Bíblia Grega tinham um texto hebraico idêntico ao que temos hoje no nosso Texto Massorético. Eles tinham um texto que podia ser diferente e até melhor, mais próximo dos originais, eventualmente. Não cabe, então, acusá-los frequentemente de erros ou interpolações. Certamente, antes da descoberta desse Salmo em Qumran, muitos acusaram a versão grega de acréscimo, sustentando diligentemente (mas também ingenuamente) a excelência do "original" disponível.

Moral da história: Qumran pode absolver os tradutores antigos em pontos específicos, e, assim, nos convidar a sermos mais cautelosos em nossas críticas.

Segunda moral da história: Convém estudar hebraico, sem dúvida. Mas convém estudar grego também, mesmo que seu interesse esteja focado mais na Bíblia Hebraica que no Novo Testamento.

* 144 na Bíblia Grega / 145 na Bíblia Hebraica.
** O termo está escrito acima da linha em letras menores, fruto de uma revisão.


Observação:  Um pequeno vídeo dotado de certo sensacionalismo, que deve estar disponível neste link aqui, apresenta essa questão relacionada ao Salmo 144 / 145. Sua proposta, contudo, é comparar a King James Version com o Texto Massorético, conforme as primeiras imagens. No fim das contas, a contraposição mais importante que se vê é entre o Aleppo Codex e um manuscrito encontrado em Qumran. A questão da existência do versículo na Bíblia Grega não é mencionada. Escrevi este texto justamente por perceber a falta dessa informação no vídeo, e a falta de uma reflexão sobre a questão verdadeiramente mais importante. Parece-me que o intento de criticar a KJV fez com que negligenciassem o que mais importava. A crítica que fazem também não é muito justa.


domingo, 3 de agosto de 2014

"Construção de fronteiras entre judaísmo e cristianismo no Império Romano" - Artigo de Monica Selvatici

Título: Construção de fronteiras entre judaísmo e cristianismo no Império Romano: os judaizantes e a retórica antijudaica no movimento cristão dos séculos I e II d.C.

Autoria: Monica Selvatici

Publicação: Revista Romanitas, 2013.

Resumo: Este artigo tem por propósito analisar a retórica antijudaica em textos cristãos dos séculos I e II d. C. suscitada não por ataques de judeus à fé cristã, mas, diferentemente, pela repetida presença de cristãos judaizantes (que adotam regras da lei de Moisés não mais seguidas pela maioria dos cristãos). Tal retórica auxilia na construção de fronteiras entre cristãos e judeus e, nesse sentido, na elaboração de uma identidade cristã que deve ser distanciada do universo de costumes e práticas judaicos.

Para acessar o artigo completo clique AQUI.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O que é "água viva" no Evangelho de João? - primeiro ensaio


por Cesar Rios

ESTA POSTAGEM FOI TEMPORARIAMENTE REMOVIDA PARA APRIMORAMENTO.
EM BREVE, UM ESTUDO MAIS COMPLETO SERÁ DIVULGADO. PRECISANDO COM URGÊNCIA, FAÇA CONTATO.