domingo, 10 de agosto de 2014

A Bíblia Hebraica e a Bíblia Grega - um dia Qumran entrou nessa relação: O caso exemplar do Salmo 144/ 145

por Cesar Rios

No que diz respeito ao Salmo 144 / 145*, o Aleppo Codex, proveniente do século X d.C., concorda com o Codex Leningradensis, que é poucas décadas mais recente, e, por conseguinte, com nossas edições modernas da Bíblia Hebraica.

Como outros, esse é um salmo alfabético, isto é, cada verso (ou cada grupo de versos, noutros casos)  se inicia com uma das letras do alfabeto em sua ordem costumeira. O problema é que falta um verso com o nun que, logicamente, deveria aparecer depois do verso iniciado com mem (verso 13).


Como se vê, do mem vamos direto ao samekh. Em Qumran, contudo, entre os chamados Manuscritos do Mar Morto, encontraram um manuscrito muito mais antigo que os referidos códices, no qual consta um verso a mais entre o 13 e o 14. E o tal novo verso começa com o nun, como deveria ser. Ao saber disso, alguém pode ficar pasmo pensando que um versículo nunca antes conhecido foi achado. Não é bem isso.

Esse versículo já era muito conhecido por ter sido preservado na Bíblia Grega. Sim, ele está na edição de Rahlf, inclusive. Mas se o leitor ainda está receoso, confira, por exemplo, o Codex Sinaiticus, que é do século IV. Na imagem abaixo, o verso marcado é o que não se encontra na Bíblia Hebraica que temos, e é o mesmo (noutra língua, óbvio) que foi "descoberto" no manuscrito em Qumran:


"Fiel é o Senhor em [todas as**] suas palavras, e santo em todas as suas obras"

O fato é que estamos treinados a entender que o "texto original" (em hebraico, no caso) é mais confiável que qualquer tradução, mesmo que essa tradução esteja preservada em um documento mais de cinco séculos anterior ao documento mais antigo (até então!) do "original". No presente caso, ao menos, quem confiava na versão grega talvez estivesse sim mais correto.

Esse fato curioso é indício de algo óbvio, mas despercebido com frequência: Não podemos afirmar que os tradutores da Bíblia Grega tinham um texto hebraico idêntico ao que temos hoje no nosso Texto Massorético. Eles tinham um texto que podia ser diferente e até melhor, mais próximo dos originais, eventualmente. Não cabe, então, acusá-los frequentemente de erros ou interpolações. Certamente, antes da descoberta desse Salmo em Qumran, muitos acusaram a versão grega de acréscimo, sustentando diligentemente (mas também ingenuamente) a excelência do "original" disponível.

Moral da história: Qumran pode absolver os tradutores antigos em pontos específicos, e, assim, nos convidar a sermos mais cautelosos em nossas críticas.

Segunda moral da história: Convém estudar hebraico, sem dúvida. Mas convém estudar grego também, mesmo que seu interesse esteja focado mais na Bíblia Hebraica que no Novo Testamento.

* 144 na Bíblia Grega / 145 na Bíblia Hebraica.
** O termo está escrito acima da linha em letras menores, fruto de uma revisão.


Observação:  Um pequeno vídeo dotado de certo sensacionalismo, que deve estar disponível neste link aqui, apresenta essa questão relacionada ao Salmo 144 / 145. Sua proposta, contudo, é comparar a King James Version com o Texto Massorético, conforme as primeiras imagens. No fim das contas, a contraposição mais importante que se vê é entre o Aleppo Codex e um manuscrito encontrado em Qumran. A questão da existência do versículo na Bíblia Grega não é mencionada. Escrevi este texto justamente por perceber a falta dessa informação no vídeo, e a falta de uma reflexão sobre a questão verdadeiramente mais importante. Parece-me que o intento de criticar a KJV fez com que negligenciassem o que mais importava. A crítica que fazem também não é muito justa.