domingo, 28 de setembro de 2014

O Mashal rabínico (parabola rabínica): comparação ou metáfora? - Artigo de Pascal Peuzé

Parece não haver muita produção acadêmica em português a respeito do Judaísmo Rabínico. Seleciono um artigo que pode ser útil a quem se interessa pelo tema. Muito interessante por instigar uma comparação quase inevitável com as parábolas de Jesus nos evangelhos, é infelizmente curto e poderia detalhar mais as informações.

Título: O Mashal rabínico (parábola rabínica): comparação ou metáfora?

Autor: Pascal Jean André Roger Peuzé

Publicação: Revista Vértices, 2010.

Resumo: O mashal rabínico (parábola rabínica) foi considerado durante séculos como uma simples comparação destinada a ilustrar os ensinamentos dos Sábios de Israel. Porém, nas últimas décadas, os estudos sobre a linguagem revolucionaram a abordagem deste gênero literário e afinaram a nossa compreensão sobre a sua natureza e função. Longe de ser meramente uma comparação, ele apresenta-se como uma metáfora desenvolvida – metáfora viva – com um alto potencial hermenêutico. É por esta razão que os Sábios multiplicaram o uso das parábolas a fim de perscrutarem a Torá. Este artigo, tomando por base um exemplo extraído da Mishná (Mishná Sukká 2,9), pretende mostrar a especificidade do mashal rabínico

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Perguntaram-me por que pronuncio "Jesus" (e não Yeshua ou Yehoshua e afins) (Continuação motivada por tréplica)

Alex,

Toda pesquisa pode, em princípio, não ter bom resultado. Geralmente, isso acontece por problemas na metodologia adotada. Por isso, no âmbito acadêmico-científico, um pesquisador começa sua formação acompanhado por um orientador. Esse orientador avalia os passos, acerta desvios, faz atentar para erros pontuais que vão desencadear em conclusões precipitadas. Só depois de Mestrado e Doutorado sob orientação, o pesquisador é considerado habilitado para desenvolver pesquisas de modo independente e autônomo. Mesmo assim, é altamente aconselhável que se ajunte a um grupo de pesquisa e divulgue seus resultados parciais entre outros pesquisadores, para que, no diálogo com os pares, imperfeições sejam identificadas.

Vejo em sua pesquisa um possível problema duplo: 1) problema na seleção / avaliação das fontes secundárias; 2) problema na apreciação das fontes primárias.

As fontes secundárias são os estudos produzidos por outros. Você parece aproveitar de um tipo de material que tem feito muito sucesso em blogs, sites e no Youtube. Contudo, esses estudos muitas vezes (na verdade, na maioria absoluta das vezes) não são produzidos por pessoas com formação adequada ou com critérios metodológicos pertinentes. Frequentemente, têm caráter mais polemista ou de divulgação que propriamente acadêmico.

Quanto às fontes primárias, é preciso verificá-las com atenção e tempo. O nome Ἰησοῦς aparece primeiro na Septuaginta para o nome יֵשׁוּעַ (Exemplo de Êxodo 17:10: καὶ ἐποίησεν Ἰησοῦς καθάπερ εἶπεν αὐτῷ Μωυσῆς ...). E o mesmo nome é usado posteriormente pelos seguidores do Messias para escreverem seu nome em grego no NT. O apóstolo Paulo escreveu suas cartas em grego e usou essa palavra, como eu já disse antes. O nome grego, então, não é Iesua como você diz. Logo, Jerônimo, que certamente sabia mais hebraico e grego que nós dois, não passa de Iesua ou Ieshua para Iesus. Ele passa de Ἰησοῦς, que foi usado no Novo Testamento em sua língua original, para Iesus, que tem o mesmo som do termo em grego! O S final, então, chega ao português direto do Latim, que o tomou do grego, e que provavelmente o colocou ali para adequar o nome ao esperado de um nome de homem em grego.

Você diz: “Alguns estudiosos acreditam que o padre Jacobus , homenageando o deus jupter. por anos . segundo relato.” Eu fico pensando: que tipo de estudioso? Eles têm formação oficial na área de linguística, estudos da Bíblia ou teologia? Tem currículo na plataforma Lattes (caso atuem no Brasil)? Imagino que não. Geralmente, essas coisas são “acreditadas” não por verdadeiros estudiosos, mas por sensacionalistas com aparência de estudiosos. É o problema das fontes secundárias duvidosas, que eu orientaria você a abandonar prontamente.

Quanto ao verso que você cita de Ezequiel:

וַיָּב֗וֹא אֶל־הַגּוֹיִם֙ אֲשֶׁר־בָּ֣אוּ שָׁ֔ם וַֽיְחַלְּל֖וּ אֶת־שֵׁ֣ם קָדְשִׁ֑י בֶּאֱמֹ֤ר לָהֶם֙ עַם־יְהוָ֣ה אֵ֔לֶּה וּמֵאַרְצ֖וֹ יָצָֽאוּ׃

Eu simplesmente não vejo relação disso com o nome de Jesus. O NOME em questão é o nome divino por excelência, escrito pelo tetragrama, que aparece claramente como o tema do verso na parte final.

Com todo respeito e com toda a tranquilidade, já que você pergunta minha opinião, eu digo que entendo que sua pesquisa te levou a uma conclusão equivocada sim. E eu entendo que minha exposição demonstrou isso. Mas aí vem a questão da crença de cada um, que deve ser respeita. Se você acredita que Satanás (eu, como você sabe, uso os termos na forma tradicional do português mesmo) tem interesse na pronúncia diferente do nome de Jesus, que isso está na agenda dele, você pode acabar entendendo que meus argumentos são mobilizados por ele, no intuito de desviar a muitos da verdade. Preciso respeitar isso.

Crendo que certamente não estou sendo movido pelo capiroto, fico tranquilo por ter exposto minha perspectiva, que é a de muitos, se não da maioria dos estudiosos que abordam o assunto.

Espero que eu tenha sido capaz de fazer com que você suspeite que sua pesquisa precisa de uma revisão.

Abraço!

Cesar

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Perguntaram-me por que pronuncio "Jesus" (e não Yeshua, Yehoshua e afins)

Oi Alex,

Vou te dar uma resposta curta, mas não por falta de consideração. Nossa conversa pode continuar aos poucos.

Eu entendo que a questão que você levanta é problemática porque a reação ou resposta de cada um a ela não depende só de conhecimento, mas também nossas crenças. Por isso, antes de dizer o que acho e porque entendo que não estamos fazendo nada de errado ao dizer "JESUS" e "JERUSALÉM", preciso dizer que:

Não creio que o uso das palavras tenha poder mágico ou místico, no sentido de que, por exemplo, uma pronúncia correta do nome do Cristo possibilitaria uma invocação melhor respondida pela divindade. Se eu cresse nisso, minha resposta seria outra.

Pois bem, estando em um país de fala inglesa, me chamam "Cisar". Estando em país de fala hispânica, me chamam "Cêssar". Uma vez tentei ensinar uma alemã a pronunciar meu nome. Ela se esforçou, mas a tônica ficou no A: CesAR! Mesmo meu nome sendo mal pronunciado, eu não deixei de ser eu, nem deixei de responder ao chamado. Por quê? Porque sei das peculiaridades dos idiomas dessas outras pessoas e reconheço uma certa impossibilidade de que pronunciem meu nome tal qual minha mãe o pronunciou desde meu nascimento.

Eu digo "JESUS". Por quê? Ora, porque sou herdeiro de um processo LINGUÍSTICO e puramente LINGUÍSTICO que faz com que o nome semita do Salvador seja assim pronunciado em português. No Novo Testamento grego o nome dele já é pronunciado diferente do que sua mãe pronunciava, pois falta ao grego o som "sibilante palato-alveoar desvozeado ", que no hebraico é representado pelo shin - שׁ. Solução? Coloquemos um sigma - σ, com som "sibilante-fricativo alveolar desvozeado" (som de dois s em português), pois é até parecido.

Paulo (judeu-fariseu-da tribo de Benjamin-circuncidado etc etc etc) não morreu de remorso por isso. Mesmo sabendo da diferença, escreveu suas cartas em grego, utilizando para "Jesus" o mesmo nome que os tradutores judeus mais antigos haviam usado para (o personagem que chamamos de) "Josué" na Septuaginta (Ἰησοῦς por יְהוֹשֻׁעַ). (Se Paulo fez isso, eu não posso fazer?)

Vamos lá: O passo seguinte foi o latim, que tomou o som do grego e o manteve praticamente inalterado. Mas o "J" do latim (que encontramos nas edições de textos em latim) não tinha o som "sibilante palato-alveolar vozeado " que tem hoje em português. Era simplesmente um i em posição de semivogal. Com o tempo, e com a diversificação do latim em línguas populares no amplo espaço em que era falado, o som do J se diversificou (Algo normal. Veja como a pronúncia do R se diversificou muito nos diversos lugares em que se fala português, por exemplo.). Compare a pronúncia do português e do espanhol para o J. Bem, coube a nós o som que temos.

"Jesus". Ele sabe que é dele que estamos falando? Sim. Creio que sim. Tanto quanto eu sei que sou eu quando meus colegas falantes de inglês me chamam de "Cisar".

Agora, se eu quiser estudar um texto, tentando entender a etimologia das palavras, não posso ler tradução, transliteração, nem discutir a partir disso. Precisarei ir ao texto em sua língua de origem. (Por isso não faz sentido pensar em transliteração reversa.) Mas estudar etimologia é uma coisa, falar sobre um assunto, ensinar em uma aula ou cultuar em uma igreja são coisas diferentes. O problema é que há certas teorias da conspiração que inventam que as mudanças linguísticas são maquinações perversas de forças ocultas. Não creio nisso. Se temos uma explicação simples, por que procurar outras pouco prováveis?

Bom, eis minha opinião e o motivo de minha pronúncia e escrita. Mas respeito quem pensa e pronuncia diferente. Eu entendo. O Senhor certamente nos entenderá muito mais.

Abraço,

Cesar

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Paulo e João se tornaram cristãos? - uma conversa bem breve

Reproduzo uma breve conversa que tive há poucos dias com alguém que não conhecia. Conversas assim se revelam oportunas para organizar pensamentos dispersos e sugerir direcionamentos pontuais para futuras reflexões. Por isso, entendo que esta poderá ser útil a alguém, mesmo contendo colocações não tão precisas de minha parte. As pequenas edições que fiz foram supressões de nomes ou referências ao contexto da conversa, que não fariam sentido aqui. Indiquei-as por colchetes vazios. Acrescentei uma correção a mim mesmo por meio de um colchete com texto em um ponto. No mais, agradeço a Ana por permitir a reprodução de nossa prosa aqui.

Ana Cristina S. Bellot de Souza
[ ], você diz [ ] que o apóstolo João e também Paulo se tornaram cristãos. Na época em que eles viveram ainda não existia o Cristianismo, nem o Novo Testamento, como hoje. Você faz esta colocação por que eles aceitaram Jesus Cristo como o Messias? Ou por que esta ideia se tornou generalizada?

Cesar
Concordo plenamente com o [   ], Ana.

O fato é que enfatizamos [   ] que o cristianismo, como religião independente e definitivamente separada do judaísmo, não existia no século I. Essa ênfase deve fazer soar meio fora de lugar a expressão "tornar-se cristão". Eu entendo. Mas será mesmo preciso uma instituição específica identificada como "cristianismo" e um cânone novo, o Novo Testamento, para que alguém "se torne cristão"? Parece que não.

Veja que já em Atos 26:28, Agripa diz a Paulo: ἐν ὀλίγῳ με πείθεις Χριστιανὸν ποιῆσαι, isto é, "por pouco me convences a fazer-me cristão." Parece claro que Agripa está pensando no caso de aderir a um movimento messiânico específico, aquele que identifica Jesus de Nazaré com o khristós/Mashiakh, que é o único movimento difundido por Paulo.

Agora, um fato linguístico curiosíssimo é que a terminação de khristIANÓS não é propriamente o que se esperaria de um termo grego cunhado a partir de khristós. Soa mais como terminação latina. E é significativo que nas três ocorrências do termo no NT não se trata de um uso afirmativo por parte de cristãos, mas sim a partir da perspectiva dos de fora. Pode soar como tipo de acusação inclusive no uso de 1 Pedro 4:16. Isso dá o que pensar.

Com sua licença, [     ]. Só entrei na conversa pra trazer mais pimenta.

Abraço!

Ana
Pode participar, não tem problema. Na minha opinião, os apóstolos não se tornaram cristãos, esta ideia veio realmente de fora, os seguidores judeus de Jesus, como João, Paulo, etc nem pensavam nisto, pois o Messias era o cumprimento das profecias da Bíblia Hebraica, mas, hoje a maioria dos cristãos tem esta opinião.

Cesar
Entendo sua perspectiva, Ana. Você entende que eles não consideravam haver nenhuma ruptura com a fé de Israel ao aceitarem a Jesus como Cristo. Concordo. Eles sabiam ser esse um prolongamento esperado da fé anunciada por Moisés, os profetas e os escritos. Mas mesmo sendo esperado, há uma ruptura por causa da especificidade do evento Cristo. Essa ruptura fica clara na introdução da Carta aos Hebreus. Se há uma nova etapa, um novo tempo (ainda que esperado), e se alguns não o reconhecem, não haveria logo a percepção de que se forma um grupo dentro do grupo maior? Digo, mesmo Paulo e João reconhecendo-se como judeus para sempre, eles também não teriam reconhecido que faziam parte de um grupo messiânico específico (que não simplesmente esperava um messias, mas que reconhecia em Jesus o Messias)? E se já percebiam haver esse grupo específico, que envolvia judeus e também muitos gentios (lembremos que Paulo tem plena consciência de que a fé em Jesus Cristo está tomando volume entre gentios - fica claro isso em Romanos), não tenderiam a aceitar logo um nome específico? No livro de Atos é Caminho. Com o tempo, provavelmente, "cristãos". Ainda que vindo de fora o termo (creio que vem mesmo de fora), ele foi aceito bem depressa.
Mas, como disse, entendo e aprecio sua reflexão. E concordo que a visão de muitos cristãos, de uma "conversão" de Paulo ou João é equivocada. Eu diria sim que eles "se tornaram" cristãos (no sentido de que passaram a seguir e imitar Jesus como Cristo), mas não deixaram de ser judeus. Acho o termo "cristão" muito bonito, pois, se é mesmo um título atribuído de fora com fins de acusação, reflete a resiliência da Igreja em tempos difíceis.
Abraço!
Só para deixar claro: Entendo que a expressão usada pelo [         ] ("tornaram-se cristãos") é possível para falar de Paulo e João. Mas concordo com a Ana de que é uma expressão errada SE QUISERMOS ENTENDER O TERMO "CRISTÃOS" COM TODO O SIGNIFICADO QUE ELE CARREGA HOJE. Ou seja: eu digo que Paulo "tornou-se cristão" entendendo o significado de "cristão" para os dias de Paulo, quando o termo já existia. O perigo da anacronia é constante. Mas pra isso serve o diálogo, para deixar claro o sentido pretendido.

Agora, Ana, parece-me que os seguidores judeus de Jesus já pensavam nisso sim. Não que tenham decidido se rotular, mas porque o contexto polêmico em que se viam envolvidos estipulava rótulos. Ora, Pedro é seguidor judeu de Jesus e aceita ser chamado de cristão, conforme lemos em sua carta. Não acha? (1Pe 4:16)

Abraço!

Ana
Esta é uma discussão bem interessante. As duas opiniões têm base, mas coloco a questão: e se os judeus, em sua maioria aceitassem a Jesus como o Messias, será que eles se colocariam como cristãos? E em outra parte você usou uma palavra bem interessante, RÓTULO. Nós temos este costume de rotular pessoas, coisas, situações...mas percebo que a judaicidade dos apóstolos era bem forte. O Cristianismo como instituição começou bem mais tarde como nós sabemos. Acho que na época a palavra cristão era para mostrar que as pessoas eram seguidoras de Cristo e seus ensinamentos dentro de uma nova perspectiva, mas já existente no mundo que eles viviam. Você não acha que só houve esta ruptura porque a maioria dos judeus não aceitou Jesus, e como coloquei acima, e se eles tivessem aceito o Messias? Incógnita?!

Cesar
Ótimo, Ana. Acho que estamos pensando juntos, e isso é bom. Gostei muito do seu comentário.

"e se os judeus, em sua maioria aceitassem a Jesus como o Messias, será que eles se colocariam como cristãos?"

De fato, se a maioria esmagadora dos judeus aceitassem a Jesus como Messias, parece que não seria preciso agregar novo rótulo. Os nomes que identificam grupos específicos só existem por causa dos limites que existem entre tais grupos e os demais. Só havia "fariseus" porque eles eram diferentes dos "saduceus" e dos "essênios". Os seguidores de Jesus entram nessa dinâmica e formam um novo grupo, minoritário ao que parece, com algumas características próprias.

"Acho que na época a palavra cristão era para mostrar que as pessoas eram seguidoras de Cristo e seus ensinamentos dentro de uma nova perspectiva, mas já existente no mundo que eles viviam."

Precisamente isso! Algumas novas ênfases havia nas palavras de Jesus. Alguns ensinamentos se chocavam com os dos fariseus. Outros se chocavam bem contrariamente aos da comunidade de Qumran. Outros iam contra os saduceus. E, assim, desde o ministério de Jesus, alguns limites, algumas diferenças já se iam demarcando.

"mas percebo que a judaicidade dos apóstolos era bem forte"

Sim, certamente. A judaicidade de Jesus também era. O movimento Jesus=Cristo é um movimento específico no âmbito judaico, não fora dele (embora seja também PARA fora dele).

"Você não acha que só houve esta ruptura porque a maioria dos judeus não aceitou Jesus, e como coloquei acima, e se eles tivessem aceito o Messias? Incógnita?!"

Acho, como você parece achar, que não haveria ruptura entre grupos (mas sim a inauguração de uma nova fase da judaicidade, que teria que ser reinterpretada e relocalizada no mundo à luz desse fenômeno ultra-significativo que é a encarnação do Logos. (veja como o judaísmo teve que se reentender a partir de grandes eventos como o exílio babilônico, a destruição do Templo, a expulsão de Jerusalém e, mais recentemente, a Shoá/holocausto. O fenômeno Cristo/Messias pediria uma reestruturação gigantesca também, não? Afinal, ele não se coloca como Mestre ou Profeta somente, mas como "cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo").

Mas, dando cordas à incógnita, conforme sua hipótese: os seguidores de Jesus teriam tido o mesmo ímpeto missionário que tiveram? o judaísmo rabínico existiria? a Mishnah teria sido escrita? e os Talmudim? (lembremos que Jesus ia contra a tradição oral dos fariseus!) Mais textos do judaísmo de língua grega teriam sido preservados?

Cada pergunta abre um universo de possibilidades instigantes.

Abraço!

Ana
Quero reforçar este último ponto: a 'reestruturação do judaísmo' a partir da vinda do Messias. Hoje, quando judeus aceitam Yeshua (Jesus) como o Messias, eles não estão fazendo isto? A maioria não se vê como cristãos, mas como judeus messiânicos. Estou certa? Entrando pela história, e analisando hoje, vemos que a criação do Cristianismo e seus dogmas, perdendo a perspectiva ou o olhar judaico não foi muito bom para o Cristianismo, pois quando dogmas são criados longe da base, cria-se fundamentos que nada tem a ver com a Palavra de Deus.
Quanto ao ímpeto missionário, penso que sim, quando analisamos que Jesus veio tanto para Israel como para a humanidade. Vemos isto na visão de Pedro, sobre alimentos impuros.
São tantas questões...

Cesar
Ana,

O judaísmo messiânico é pequeno demais para se falar em reestruturação do judaísmo (talvez somente em reinterpretação identitária dos adeptos judeus). Eu pensei em reestruturação a partir da sua hipótese de adesão majoritária dos judeus a Jesus como Messias. Outro ponto é que o judaísmo messiânico surge em meio a um judaísmo que tem séculos de tradição a separá-lo dos judaísmos existentes nos dias de Jesus ou Paulo. Poderíamos usar essa experiência como parâmetro de comparação? No tempo de Jesus os adeptos do Jesus=Cristo eram essênios, fariseus, samaritanos etc. Hoje o judaísmo de referência é o rabínico.

Outra coisa, como a minoria dos adeptos do judaísmo messiânico é de judeus de origem (dizem serem uns 20%), sendo a maioria de gentios, pode parecer, às vezes, mais uma reestruturação do cristianismo [ou melhor, também: reinterpretação identitária dos adeptos gentios].

Considere-se, também, que há diferenças entre diferentes grupos judaico-messiânicos. Há doutrinas diversas existentes entre eles. (E lembre-se que em âmbito judaico também as doutrinas surgem, evoluem e mudam. Vemos isso na Antiguidade. Às vezes há certo maniqueísmo que atribui o nefasto ao não-judeu e uma ideia de pureza ao judaico. A coisa é mais complicada do que parece.)

Bom, apresento esses pontos como constatações bem difundidas por aí, só para deixar a reflexão mais complexa, mas aí chegamos a uma questão ATUAL, sobre a qual, [      ], não posso emitir minha opinião pessoal ou debater.

Fico agradecido por essa conversa inteligente.

Muito prazer! Abraço!

Ana
Entendo, que todas as religiões têm pluralismo na sua maneira de viver. O tema dos judeus messiânicos é explosivo. Quando falei em reestruturação, é não deixar o judaísmo, mas a partir de aceitar Jesus como Messias, ter uma nova perspectiva dentro do judaísmo. Fiquei feliz em debater com você, [     ]
Um abraço!!!

domingo, 7 de setembro de 2014

A presença dos samaritanos na obra lucana (Lc-At) (Artigo de Boris Ulloa)

Artigo breve e bom sobre o significado teológico dos samaritanos na obra de Lucas. O autor atenta para detalhes realmente interessantes. Parece faltar alguma informação mais ampla sobre os samaritanos em si, mas é compreensível que esse não é o foco do autor. Outras leituras devem suprir essa impressão. A relevância dos samaritanos para o Novo Testamento fica bem identificada. Ademais, o texto muito bem escrito proporciona uma leitura prazerosa.

Título: A presença dos samaritanos na obra lucana (Lc-At): Uma análise de sua importância teológica na reconstituição de Israel realizada pelo Messias Jesus, o filho de Jacó

Autor: Boris Agustín Nef Ulloa

Publicação: Revista Atualidade Teológica (Puc-Rio)

Para acessar o texto completo clique AQUI.

La versión samaritana del Pentateuco (Artigo de Luis Blanc)

Esse pequeno artigo fornece uma noção boa sobre a Torah samaritana, sobretudo no que diz respeito às diferenças para com o Texto Massorético e a LXX. Está em espanhol, mas é de fácil leitura e bem curto.

Autor: Luis Fernando Girón Blanc

Publicação: 'llu - Revista de Ciencias de las Religiones (UCM)

Para acessar o artigo clique AQUI.

Como Flávio Josefo representa/apresenta os samaritanos? (sugestão de artigo em inglês)

Esse texto de Louis Feldman explicita bem a ambivalência existente no século I (e II) para com os samaritanos. O modo como Josefo, nossa principal fonte sobre os samaritanos, apresenta esse grupo é interessante tanto para percebermos características dos próprios samaritanos, quanto para pensarmos sobre a escrita do historiador judeu. Feldman ainda nos apresenta uma breve visão da literatura rabínica a respeito dos samaritanos. É uma questão instigante, que merece algum esforço de leitura.

Título: Josephus attitude toward the Samaritans: a study in ambivalence

Autor: Louis Feldman

Publicação: Jewish Sects, Religious Movements, and Political Parties (Creighton University Press, 1990)

Para acessar o artigo completo clique AQUI.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Perguntaram-me sobre a diferença entre agapáo e philéo



por Cesar Rios

Logo de início, vou dizendo que não consigo responder satisfatoriamente essa pergunta. Se o leitor quer respostas convictas e sistematizações absolutas, deve procurar outras fontes. O que farei é simplesmente assinalar alguns pontos que percebo serem frequentemente esquecidos quando o assunto é abordado.

1. Eu não digo que há diferentes tipos de amor em grego. Essa é uma afirmação feita a partir de nossa perspectiva. Um falante de grego antigo não tinha o termo “amor” para identificar agapáo, philéo e outros termos como tipos de tal coisa. O que acontece é que agapáo, philéo e outros termos fazem parte de um mesmo campo semântico (grupo de significados pertinentes a uma mesma área de sentido). São coisas ou fenômenos diferentes, mas parecidos. Como todos sabem, não há correspondência perfeita na diversidade de palavras entre uma língua e outra. Por isso, um idioma pode usar um só termo para traduzir mais de um termo de outro (e o contrário também pode acontecer, claro).

2. Não entendo que agapáo e philéo sejam sinônimos pelo simples fato de que não acredito em sinônimos. Explico: não acredito que existam sinônimos perfeitos em textos extraordinários, como os literários ou sagrados, nos quais qualquer variação pode ser significativa. Em bilhetes de geladeira, jornais populares ou cartas comerciais pode haver sinonímia, claro.

3. agapáo não é “amor cristão” exclusivamente, nem é um termo inovador peculiar do cristianismo. Embora não seja extremamente frequente na literatura grega, aparece muitíssimas vezes na Bíblia grega. Ou seja, faz parte do vocabulário adotado pelos tradutores judeus da Bíblia hebraica, e de textos produzidos por judeus em grego (como Sabedoria de Salomão, por exemplo).

4. agapáo não é amor de Deus para com o ser humano e do ser humano para com Deus somente, pois os humanos são convidados a vivenciar tal “coisa” entre eles mesmos (Lv 19:18, na tradução grega; e suas retomadas no NT). E essa tal “coisa” é narrada de fato como acontecendo entre pessoas de distintas relações, tanto na Bíblia grega (Gn 22:2, Abraão-Isaque, isto é, pai-filho), quanto no NT (Ef 5:25, marido-esposa).

5. agápe, substantivo correlato do verbo agapáo, não deve ser traduzido por "caridade". Primeiro, porque em vários contextos a ideia soaria estranha demais. Segundo, porque o texto de Coríntios 13 impede definitivamente essa leitura (ver verso 3).

Pois bem, perguntaram-me sobre a diferença entre agapáo e philéo, e eu acho que não sei muito bem. Procurei alguma resposta pronta, um estudo que considerasse essas observações que expus acima. Ainda não achei. Suspeito que não sei muito bem. Mas suspeito também que tem muita gente que acha que sabe bem, mas não sabe. O que sugiro então é que cada um continue sua busca, lendo o que encontrar pela frente, e, se julgar conveniente ou suportável, que tenha esses cinco pontos que adiantei em consideração, para não aceitar respostas fáceis facilmente.

Confesso suspeitar, pelas ocorrências de que me lembro, que agapáo envolva algo mais forte ou enraizado que philéo. Mas isso serviria para todos os contextos e ocorrências dos termos? É possível encontrar um padrão de significado para esses dois verbos em todo o corpus judaico-cristão? Se não, deveríamos investigar um sistema de significado específico em um só texto ou autor?

Afinal, o estudo do grego não dá todas as respostas. Muitas vezes, o resultado é que o aprendiz se torna mais insatisfeito com as respostas disponíveis, e desconfiado de suas próprias hipóteses. Isso é até bom, pois faz pensar, dá trabalho. Estudar grego, no fim das contas, é um trabalho que te dará mais trabalho pela frente.