sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Perguntaram-me por que pronuncio "Jesus" (e não Yeshua, Yehoshua e afins)

Oi Alex,

Vou te dar uma resposta curta, mas não por falta de consideração. Nossa conversa pode continuar aos poucos.

Eu entendo que a questão que você levanta é problemática porque a reação ou resposta de cada um a ela não depende só de conhecimento, mas também nossas crenças. Por isso, antes de dizer o que acho e porque entendo que não estamos fazendo nada de errado ao dizer "JESUS" e "JERUSALÉM", preciso dizer que:

Não creio que o uso das palavras tenha poder mágico ou místico, no sentido de que, por exemplo, uma pronúncia correta do nome do Cristo possibilitaria uma invocação melhor respondida pela divindade. Se eu cresse nisso, minha resposta seria outra.

Pois bem, estando em um país de fala inglesa, me chamam "Cisar". Estando em país de fala hispânica, me chamam "Cêssar". Uma vez tentei ensinar uma alemã a pronunciar meu nome. Ela se esforçou, mas a tônica ficou no A: CesAR! Mesmo meu nome sendo mal pronunciado, eu não deixei de ser eu, nem deixei de responder ao chamado. Por quê? Porque sei das peculiaridades dos idiomas dessas outras pessoas e reconheço uma certa impossibilidade de que pronunciem meu nome tal qual minha mãe o pronunciou desde meu nascimento.

Eu digo "JESUS". Por quê? Ora, porque sou herdeiro de um processo LINGUÍSTICO e puramente LINGUÍSTICO que faz com que o nome semita do Salvador seja assim pronunciado em português. No Novo Testamento grego o nome dele já é pronunciado diferente do que sua mãe pronunciava, pois falta ao grego o som "sibilante palato-alveoar desvozeado ", que no hebraico é representado pelo shin - שׁ. Solução? Coloquemos um sigma - σ, com som "sibilante-fricativo alveolar desvozeado" (som de dois s em português), pois é até parecido.

Paulo (judeu-fariseu-da tribo de Benjamin-circuncidado etc etc etc) não morreu de remorso por isso. Mesmo sabendo da diferença, escreveu suas cartas em grego, utilizando para "Jesus" o mesmo nome que os tradutores judeus mais antigos haviam usado para (o personagem que chamamos de) "Josué" na Septuaginta (Ἰησοῦς por יְהוֹשֻׁעַ). (Se Paulo fez isso, eu não posso fazer?)

Vamos lá: O passo seguinte foi o latim, que tomou o som do grego e o manteve praticamente inalterado. Mas o "J" do latim (que encontramos nas edições de textos em latim) não tinha o som "sibilante palato-alveolar vozeado " que tem hoje em português. Era simplesmente um i em posição de semivogal. Com o tempo, e com a diversificação do latim em línguas populares no amplo espaço em que era falado, o som do J se diversificou (Algo normal. Veja como a pronúncia do R se diversificou muito nos diversos lugares em que se fala português, por exemplo.). Compare a pronúncia do português e do espanhol para o J. Bem, coube a nós o som que temos.

"Jesus". Ele sabe que é dele que estamos falando? Sim. Creio que sim. Tanto quanto eu sei que sou eu quando meus colegas falantes de inglês me chamam de "Cisar".

Agora, se eu quiser estudar um texto, tentando entender a etimologia das palavras, não posso ler tradução, transliteração, nem discutir a partir disso. Precisarei ir ao texto em sua língua de origem. (Por isso não faz sentido pensar em transliteração reversa.) Mas estudar etimologia é uma coisa, falar sobre um assunto, ensinar em uma aula ou cultuar em uma igreja são coisas diferentes. O problema é que há certas teorias da conspiração que inventam que as mudanças linguísticas são maquinações perversas de forças ocultas. Não creio nisso. Se temos uma explicação simples, por que procurar outras pouco prováveis?

Bom, eis minha opinião e o motivo de minha pronúncia e escrita. Mas respeito quem pensa e pronuncia diferente. Eu entendo. O Senhor certamente nos entenderá muito mais.

Abraço,

Cesar