terça-feira, 11 de novembro de 2014

Breve comentário sobre Lc 7:1-10 - O centurião e os anciãos judeus



por Cesar Rios

[O texto a seguir surge a partir da solicitação de um aluno. Ele se incomodou com alguns detalhes da versão de Lucas para o episódio do centurião que recorre a Jesus para a cura de um servo. A resposta que preparei é curta e simples, mas se o ajudou, poderá ajudar a outros.]

Confesso que a versão de Mateus era a que estava presente em minha memória. A narrativa de Lucas, contudo, é riquíssima em detalhes instigantes e significativos. Entendo que Mateus traz uma versão mais simples que, possivelmente, encurta a narrativa ao colocar o centurião como agente direto das falas dirigidas a Jesus. Isso não é absurdo. Ele é o responsável pelas falas e omitir os intermediários não é um desvio grande. Em João 19:1, não me parece que Pilatos tenha ele mesmo castigado Jesus. Mas ele é o responsável ou gerente da ação. Talvez, Mateus tenha narrado de modo semelhante.

Mas vamos aos detalhes de Lucas que me interessam:

Ἐπειδὴ ἐπλήρωσεν πάντα τὰ ῥήματα αὐτοῦ εἰς τὰς ἀκοὰς τοῦ λαοῦ, εἰσῆλθεν εἰς Καφαρναούμ.
 2  Ἑκατοντάρχου δέ τινος δοῦλος κακῶς ἔχων ἤμελλεν τελευτᾶν, ὃς ἦν αὐτῷ ἔντιμος.
 3  ἀκούσας δὲ περὶ τοῦ Ἰησοῦ ἀπέστειλεν πρὸς αὐτὸν πρεσβυτέρους τῶν Ἰουδαίων ἐρωτῶν αὐτὸν ὅπως ἐλθὼν διασώσῃ τὸν δοῦλον αὐτοῦ.
 4  οἱ δὲ παραγενόμενοι πρὸς τὸν Ἰησοῦν παρεκάλουν αὐτὸν σπουδαίως λέγοντες ὅτι ἄξιός ἐστιν ᾧ παρέξῃ τοῦτο·
 5  ἀγαπᾷ γὰρ τὸ ἔθνος ἡμῶν καὶ τὴν συναγωγὴν αὐτὸς ᾠκοδόμησεν ἡμῖν.
 6  ὁ δὲ Ἰησοῦς ἐπορεύετο σὺν αὐτοῖς. ἤδη δὲ αὐτοῦ οὐ μακρὰν ἀπέχοντος ἀπὸ τῆς οἰκίας ἔπεμψεν φίλους ὁ ἑκατοντάρχης λέγων αὐτῷ· κύριε, μὴ σκύλλου, οὐ γὰρ ἱκανός εἰμι ἵνα ὑπὸ τὴν στέγην μου εἰσέλθῃς·
 7  διὸ οὐδὲ ἐμαυτὸν ἠξίωσα πρὸς σὲ ἐλθεῖν· ἀλλὰ εἰπὲ λόγῳ, καὶ ἰαθήτω ὁ παῖς μου.
 8  καὶ γὰρ ἐγὼ ἄνθρωπός εἰμι ὑπὸ ἐξουσίαν τασσόμενος ἔχων ὑπ᾽ ἐμαυτὸν στρατιώτας, καὶ λέγω τούτῳ· πορεύθητι, καὶ πορεύεται, καὶ ἄλλῳ· ἔρχου, καὶ ἔρχεται, καὶ τῷ δούλῳ μου· ποίησον τοῦτο, καὶ ποιεῖ.
 9  ἀκούσας δὲ ταῦτα ὁ Ἰησοῦς ἐθαύμασεν αὐτὸν καὶ στραφεὶς τῷ ἀκολουθοῦντι αὐτῷ ὄχλῳ εἶπεν· λέγω ὑμῖν, οὐδὲ ἐν τῷ Ἰσραὴλ τοσαύτην πίστιν εὗρον.

O primeiro trecho marcado, no versículo 3, conta que ele enviou para junto de Jesus anciãos dos Judeus. Pareceria que o fez no uso de sua autoridade, e que os anciãos acataram a ordem com receio. Contudo, os vers. 4 e 5 nos contam uma história bem diferente. Ele não usa os anciãos como intermediários por ter autoridade sobre eles, mas por ser amigo deles! Em princípio, alguém poderia se assustar: Um romano amigo de judeus?! Sim. A amizade de pessoas de fora para com a comunidade judaica não era algo incomum (isso fica claro em trechos de Fílon e Josefo). Os anciãos, por sua vez, não só cumprem o pedido (não é uma ordem necessariamente, pois o verbo é ἀποστέλλω, enviar, como o que Jesus faz com os discípulos.). Eles o cumprem diligentemente (σπουδαίως). Eles querem que se lhe retribua a esse romano específico o afeto que ele tem pelo povo judeu, exemplificado fortemente pelo fato de que ele bancou a construção de uma sinagoga (e aqui está mais uma atribuição da ação a seu responsável indireto. Certamente, o centurião não trabalhou de pedreiro na obra da sinagoga.).

Bom, lembremos que não havia somente anti-judaísmo, mas também filo-judaísmo na Antiguidade. Talvez possamos considerar que esse centurião podia ser um tipo de "temente a Deus" (aqueles simpatizantes do "judaísmo" que não passavam pelo processo de conversão plena). Essa boa relação do com os líderes judeus não parece estranha. Agora, e a relação dos líderes judeus com Jesus? Será que era uma boa escolha mandar os anciãos como intermediários? Ora, também temos por vezes a falsa ideia de que a relação entre líderes judeus e jesus era sempre repleta de rusgas. Mas devemos nos lembrar, por exemplo, do episódio da cura da filha de Jairo, que se dá na mesma região. Ele mesmo um líder da sinagoga recorre a Jesus e seus servos se referem a Jesus como mestre (Mc 5:35). Não é só na Galileia que esses momentos de paz acontecem. Em Jerusalém pelo menos um escriba trocará elogios com o Messias (Mc 12:28ss).

Jesus não discute com os anciãos, mas vai logo em direção à casa do centurião. Este manda novos intermediários, desta vez apresentados como amigos simplesmente, para interceptá-lo. Ele o faz por humildade. Embora os anciãos o julguem digno (ἄξιος) do favor de Jesus, ele mesmo não se considera apto (ἱκανός) a receber a honra da presença de Jesus em sua casa, e explica que ele não foi pessoalmente falar com Jesus por não se considerar digno (ἠξίωσα) disso. No fim das contas, o elogio que Jesus faz à fé do homem parece se contrapor a essa imaginada falta de dignidade. Estamos a caminho de um tempo em que dignidade/justiça serão definidas por fé. Estamos a caminho do ensino paulino. Mas isso já é outra conversa.

Você perguntou se o texto tem alguma coisa do "background" judaico por traz dele ou somente tradição de romanos. Acho que o texto tem alguma coisa significativa sobre esse encontro judaico-romano, não sobre um lado ou outro somente. Ele revela a complexidade das relações, que não devem ser estereotipadas conforme nossas expectativas iniciais.