domingo, 29 de março de 2015

Rudimentos da literatura rabínica para cristãos



Rudimentos da literatura rabínica para cristãos

 
por Cesar Rios

O movimento rabínico se estabelece após a destruição do Templo pelos romanos em 70 d.C., ainda que se fundamente em tradições anteriores. Um erro comum por parte de leitores cristãos consiste na aplicação do conhecimento a respeito do judaísmo rabínico ao judaísmo dos tempos de Jesus. Isso acontecia frequentemente em círculos especializados até meados do século passado. Atualmente, é atitude mais restrita aos leitores sem formação específica. O erro é considerável, uma vez que leva a conclusões precipitadas a respeito da relação entre vida ou ensino de Jesus e seu entorno. Alguns chegaram a dizer com uma certeza inabalável que o nazareno roubara de Hillel a famosa regra de ouro. De fato, na Mishnah, está registrada uma fala do sábio em muito semelhante à que Jesus profere, diferente apenas por ser negativa e não positiva:

Não faça a teu próximo aquilo que não gostaria que te fosse feito. Nisso se resume toda a Lei. O resto é apenas explicação. (Shabbat 31a)

Faz aos outros aquilo que gostarias que te fizessem. Nisso se resume toda a Lei de Moisés e os profetas. (Mt 7:12)

A semelhança pode parecer muito grande para que se considere a possibilidade de uma coincidência, uma conclusão semelhante por meio de reflexões absolutamente desconectadas. Então, já que Hillel viveu antes de Jesus, à primeira vista, este último foi quem aproveitou ensino daquele em seu discurso. Isso não seria exatamente um problema. Jesus poderia se apropriar e corroborar elementos já presentes na tradição de seu povo, e ele o faz, a meu ver, em algumas ocasiões. O problema é que essa conclusão, no presente caso, é apressada por desconsiderar o fato de que a fala de Jesus, dita por volta de 30 d.C. foi registrada no Evangelho ainda no século I, enquanto a fala de Hillel, dita por volta de, no máximo, 10 d.C., só foi registrada entre o fim do século II e início do III d.C., quando a Mishnah foi redigida. A fala de Hillel foi transmitida oralmente por tanto tempo? É possível que os rabinos tenham aproveitado ensinamento de outra fonte e atribuído a um de seus precursores?
Não é possível discernir categoricamente o que a Mishnah conserva inalterado e o que foi modificado ao longo da transmissão oral ou deliberadamente inventado. Assim, ainda que se refira a personagens históricos anteriores a Jesus, o documento não nos serve como fonte confiável a respeito de tal contexto ou universo discursivo.
Se é assim, por que motivo um cristão se interessaria pela literatura rabínica? Penso imediatamente em três respostas: 1) Para conhecer a história de uma das três grandes religiões monoteístas do mundo moderno; 2) Para conhecer o caminho que tomaram os judeus que não reconheceram Jesus como Messias, sobretudo os fariseus, e, assim, tentar entender um pouco melhor, ainda que de modo sabidamente precário, possíveis características de seu sistema de pensamento; 3) Para conhecer um movimento que crescia e se fortalecia paralelamente à Igreja Cristã nos primeiros séculos da Era Comum, com muitas diferenças, mas também inevitáveis semelhanças.
A primeira das respostas deve ser livre de polêmicas. As duas outras podem suscitar discussões. Sobre a segunda, apenas acrescento que a semelhança entre o pouco que sabemos a respeito dos fariseus por meio do Novo Testamento e Flávio Josefo e o que encontramos na Mishnah[1] me parece suficiente para entender que o movimento rabínico é continuidade (ainda que com rupturas) de muito do antigo farisaísmo (ainda que a Mishnah em si não se refira aos sábios mais antigos como fariseus, esquecendo-se completamente do termo). A terceira resposta pode gerar alguma estranheza pela forma como aproximo judaísmo rabínico e Igreja Cristã não meramente como opostos, mas especialmente como semelhantes. Isso faço por considerar que uns e outros estão inevitavelmente ligados enquanto reconhecerem no Antigo Testamento / Tanakh o começo e fundamento de sua história. Ambos acusaram o outro grupo de adicionar uma novidade a esse fundamento (as escrituras neotestamentárias de um lado, e a tradição oral de outro). Ambos, por outro lado, reconhecem o próprio “acréscimo” não como intruso, mas naturalmente relacionado com o Antigo Testamento / Tanakh.
O movimento rabínico deve gerar, no mínimo, uma curiosidade em quem se dispõe a olhar para o cristianismo antigo. Na melhor das hipóteses, esse olhar poderá ensejar uma melhor percepção de sua própria história e tradição, por meio da convidativa comparação. No pouco que segue, então, apresento uma breve descrição de elementos centrais da tradição do judaísmo rabínico, não no sentido de munir o leitor de informação definitiva, mas de oferecer uma luz mínima sobre um universo profundamente complexo e rico.

MIDRASH
Tipo de interpretação judaica que explora o texto além de seu sentido mais óbvio. A interpretação midráshica recorre frequentemente a evocação de um segundo ou mais textos para a elucidação de uma passagem que, em princípio, nada teria a ver com esses textos secundários trazidos para a discussão. No entrelaçar desses textos independentes (mas inevitavelmente relacionados pela ideia de que as Escrituras se constituem como uma unidade), o interprete desvenda o sentido do trecho antes obscuro. Para tanto, compõe um novo texto, que deve ser lido em conjunto com os trechos bíblicos a que se refere. Característica comum do midrash é o preenchimento de lacunas do texto bíblico. A informação que falta em uma narrativa, por exemplo, é preenchida pelo estudioso, por vezes, de modo bem criativo e sofisticado.

MISHNAH
Primeira grande obra escrita do judaísmo. Não se apresenta como texto de um único autor a respeito de um único assunto. Pelo contrário, e a compilação do ensino de diferentes sábios a respeito de variados assuntos. O mais interessante para o leitor cristão, acostumado na tentativa de harmonização de todos os ensinamentos, e o fato de que, respostas discordantes para uma mesma pergunta são arroladas sem que haja esforço para se chegar a um denominador comum ou para se eleger a melhor resposta. A Mishnah nasce desse diálogo aberto. Talvez, também, seja melhor lida em um contexto dialogal, e não individualmente, já que as discussões dos sábios judeus convidam a uma inserção do leitor no debate.
Curioso também é o fato de que essas opiniões diferentes não são consideradas como meras opiniões, mas como uma Lei Oral, que teria sido entregue juntamente com a Lei Escrita. Certamente, no meio secular ou não especificamente judaico ortodoxo, essa concepção não recebe muito apoio. Antes, pensa-se que o início dessa tradição esteja no século II a.C. ou, na mais antiga das hipóteses, V a.C., tempo de Esdras (HELYER, 2002, p. 452).
Assim como a Torah escrita, a Mishnah, primeira codificação da tradição oral, está registrada em hebraico. Devido a mudanças no idioma entre o período vetero-testamentário e o período rabínico, adjetivos são acrescentados. Diz-se “hebraico bíblico” e “hebraico mishnaico”. Outro adjetivo constantemente associado a Mishnah e “tanaítico”. Os sábios tanaítas são aqueles que viveram e transmitiram a sabedoria judaica desde as escolas de Hillel e Shammai até Rabbi Judah (165 – 200 d.C.), compilador da Mishnah. E bem compreensível que o surgimento desse material escrito encerre uma etapa (que portanto merecera um nome especifico) e de início a outra. Pela primeira vez, a tradição que era transmitida de pessoa para pessoa pode ser lida, o que promove uma uniformidade maior e facilita a subsequente expansão do movimento rabínico como algo unificado. Isso não significa que os rabinos tenham fácil e imediatamente convencido todos os grupos judaicos da necessidade de se submeterem a essa tradição. Há evidências no sentido contrário, indicando que demorou longo período até que as sinagogas espalhadas pelo mundo aderissem ao movimento (COHEN, 2006, p. 215-217).

TORAH
Os cinco primeiros livros da Bíblia, mais conhecidos no meio cristão pelo nome grego “Pentateuco”. O sentido comum do termo Torah é algo como “instrução”, mas é geralmente traduzido simplesmente como “lei”.

TANAKH
Nome que se dá à Bíblia hebraica como um todo, que corresponde em conteúdo ao Antigo Testamento dos cristãos protestantes (que se iguala ao dos Católicos Romanos se do cânone desses se desconsiderar os deuterocanônicos). Apesar da correspondência, a ordem dos livros é diferente. A organização da Tanakh está indicada no próprio nome, que é formado a partir de três palavras, que indicam as três partes do livro: Ta vem de Torah, que indica o Pentateuco. Na vem de Neviim, literalmente “Profetas”, que indica os livros proféticos. Aqui cabe considerar que estes não são exatamente os mesmos da Bíblia dos protestantes. Não há subdivisão entre profetas menores e profetas maiores, mas entre profetas anteriores, Josué aí inserido, por exemplo, e profetas posteriores, como Isaías. Kh vem de Ketuvim, que significa “Escritos”. Nessa parte estão todos os livros que não são parte da Torah nem dos Profetas. Os nossos chamados livros poéticos estão aí, mas também Rute, por exemplo. Certamente, essa organização diferente produz uma ordem diferente dos livros.

HALAKHAH
O termo provém da raiz do verbo hebraico halakh, “caminhar”. Refere-se a toda discussão judaica de caráter legal, definição do que e permitido e do que é proibido. As discussões halákhicas surgem por causa da necessidade de se pensar em formas de aplicar a Lei aos novos contextos em que os judeus viviam. Para entender tal necessidade, e necessário que se lembre que a Torah já era documento antiquíssimo no início da Era Comum.

AGADAH
Em oposição a halakhah, a agadah e a discussão judaica que cuida do que não se relaciona com as leis, com a noção de permitido e proibido. O verbo hebraico agad significa `relatar`, `contar`. As narrativas da Torah, da Tanakh como um todo, e lendas tradicionais, assim como elementos doutrinários de base constituem o material e objeto principal das reflexões agádicas.

TARGUM
Os targumim são traduções simplificadas ou mesmo paráfrases de textos da Tanakh em aramaico. Devem ter surgido no contexto das sinagogas pela necessidade de ensinar aqueles que já não entendiam bem o texto em hebraico. Ao produzir um texto facilitado, os responsáveis pelos targumim registravam suas interpretações de modo discreto, isto é, sem anunciar que acrescentavam palavras e expressões para explicitar determinado entendimento do texto original. Não é sem sentido comparar esse tipo de literatura com o empreendimento de traduções facilitadas da Bíblia para o público simples hoje em dia.

TALMUD
Quando falamos em Talmud, na verdade, deveríamos usar o plural e dizer Talmudim. Ha dois Talmudim igualmente importantes para a tradição judaica: o Talmud de Jerusalém e o Talmud Babilônico. O primeiro e mais curto e se desenvolveu por escrito por volta do séc. III d.C.. O segundo e consideravelmente mais amplo e foi registrado somente por volta do séc. V d.C.. Ambas obras se colocam como registro da tradição oral dos sábios judeus. Ambas contem a própria Mishnah em seu texto, em um quadro central. Além da Mishnah, em hebraico, há um conjunto de comentários escritos em aramaico, a Gemarah. Esses comentários, contudo, não se limitam a explicar a Mishnah. Ha novas reflexões autônomas nos documentos. Eles se ocupam sobretudo das discussões de caráter halákhico e chegam a um nível de detalhamento impressionante na definição do que e preciso fazer e do que é proibido.

Referências
HELYER, Larry R. Exploring Jewish Literature of the Second Temple Period. Downers Grove: InterVarsity Press, 2002.
COHEN, Shaye. From the Maccabees to the Mishnah. Second Edition. London: Westminster John Knox Press, 2006.


[1] Por exemplo, os fariseus, no NT e em Josefo (B.J. 2.163), são os defensores da ideia da ressurreição, que é enfaticamente apregoada e exigida pela Mishnah. O tratado Sanhedrin (10.1) afirma que aqueles que negam que a ressurreição seja doutrina da Torah estão excluídos do mundo vindouro. De modo mais geral, a importância dada a uma tradição oral de caráter legal, que viria a se chamar Torah Oral, também aproxima os fariseus dos rabinos.