terça-feira, 5 de maio de 2015

O que é literatura apocalíptica? - nota introdutória



O que é literatura apocalíptica? - nota introdutória
por Cesar Rios



Literatura apocalíptica é o nome utilizado para designar um gênero do discurso em seu conjunto. Isso significa no mínimo uma coisa que pode não condizer com a preconcepção da maioria dos leitores (adeptos) da Bíblia: Há mais de um texto identificado sob esse nome, de modo que o Apocalipse de João não está sozinho.
Quais seriam, pois, as características dos textos agrupáveis sob tal rótulo? O que eles têm em comum com o único apocalipse canônico? Em que contexto surgem esses textos? Essas e muitas outras perguntas originaram e ainda originam incontáveis páginas e grande esforço reflexivo de pesquisadores de todo o mundo.
Antes de dirimir questões desafiadores, contudo, a primeira grande tarefa desses estudiosos é esclarecer seus interlocutores não especialistas sobre o fato de que o termo "apocalipse" não significa "catástrofe" ou "fim do mundo". É bem verdade que esse gênero do discurso demonstra certo interesse por mudanças radicais na ordem das coisas, eventos significativos, escatológicos, de repercussão impressionante, cósmica inclusive. Mas o que o termo indica de fato é a ideia de "revelação", de desvelamento de algo antes oculto aos olhos do ser humano comum. Essa revelação, em geral, não é alcançada pelo enunciador do discurso ou por seu personagem individualmente, mas é mediada por um ser sobrenatural sob comando de Deus. Com essa concepção menos restrita do gênero apocalíptico, o leitor da Bíblia reconhecerá certamente que o último livro não é o único a reunir tais características. Parte considerável do livro de Daniel tem elementos claros do gênero. Dentro do cânone, esses dois seriam os exemplos claros de literatura apocalíptica. Mas a produção de textos do tipo ocorre tanto entre o surgimento dos dois, quanto depois da escrita do apocalipse neotestamentário, e ocorre tanto em contexto estritamente judaico, quanto entre os cristãos. Não é de se surpreender que houvesse, por exemplo, um apocalipse circulando junto com o joanino entre as comunidades cristãs dos séculos I e II d.C.. O cânone muratoriano (aprox. 170 d.C.) se refere ao Apocalipse de Pedro, sobre o qual afirma:

apocalypses etiam Iohannis, et Petri, tantum recipimus, quam quidam ex nostris legi in ecclesia nolunt
Aceitamos somente o apocalipse de João e o de Pedro, ainda que alguns de nós não querem que seja lido na Igreja. (minha tradução)

Mas é justamente no período intertestamental, mais precisamente entre 250 a.C. e 100 d.C., que o gênero vive sua fase de maior produção (SOARES, 2008, p. 101).[i] Parte dos chamados livros de Enoque, o Livro de Jubileus, e 4 Esdras são exemplos comuns de livros que se enquadram no gênero. Os nomes de Enoque e Esdras nos títulos mencionados fazem lembrar que é assaz comum que os textos apocalípticos sejam pseudepígrafos, isto é, que se declarem como textos de algum personagem bíblico importante, sem que haja qualquer relação real genética entre tal texto e tal personagem. É possível que esse fato seja consequência de uma tentativa de autoridade, isto é, que o escritor real procure no nome histórico-bíblico escolhido um respaldo para sua composição, o que seria importante numa época em que a credibilidade estava em jogo, por considerar-se que a profecia havia cessado (HELYER, 2002, p. 117). Há, certamente, alguma semelhança entre esses escritos apocalípticos e os textos proféticos da Bíblia hebraica. Também os profetas têm frequentemente informações privilegiadas sobre o devir. Também eles dependem do sobrenatural para acessar tais informações. Não é estranho que se considere a tradição apocalíptica como uma continuidade da tradição profética (COHEN, 2006, p. 186-192). Porém há traços peculiares que distinguem os gêneros, junto com outros que os aproximam.
Em geral, e sobretudo após a profanação do Templo por Antíoco Epifanes (167 a.C.), a literatura apocalíptica se interessa de modo marcado pela história (COHEN, 2006, p. 187). Os textos apresentam desenvolvimentos da história em que há uma intervenção divina decisiva, que inaugura uma nova fase ou era, de modo que o conhecimento simples dos fatos concretos ou históricos se mostra insuficiente. Só a revelação viabiliza uma compreensão real do que estaria por vir. E o que estaria por vir não seria de outro modo esperado. Seria algo verdadeiramente surpreendente, marcante e escatológico.
É importante considerar a existência e, ainda mais, a popularidade desses escritos nos tempos de Jesus e dos apóstolos. Eles são parte do universo discursivo e do imaginário que recebe pela primeira vez a mensagem do Messias Jesus. Ainda que, conceitualmente, haja diferenças notáveis, é também por causa desse arcabouço prévio que a mensagem dos cristãos pode ser acessada por muitos do povo comum.
Caso haja algum leitor ainda suspeitando da pertinência de se querer conhecer a literatura apocalíptica no meio cristão, cito um texto que será bem familiar dos leitores do Novo Testamento, e que copio de um relato apocalíptico intitulado Testamento de Moisés:

δὲ Μιχαὴλ ἀρχάγγελος ὅτε τῷ διαβόλῳ διακρινόμενος διελέγετο περὶ τοῦ Μωϋσέως σώματος οὐκ ἐτόλμησεν κρίσιν ἐπενεγκεῖν βλασφημίας, ἀλλὰ εἶπεν· Ἐπιτιμήσαι σοι κύριος.
E o arcanjo Miguel, quando, em uma contenda com o diabo, disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou proferir contra ele um juízo com duras palavras de reprovação, mas disse: Repreenda-te o Senhor. (Testamento de Moisés 1:8 - minha tradução).

Referências
HELYER, Larry R. Exploring Jewish Literature of the Second Temple Period. Downers Grove: InterVarsity Press, 2002.
COHEN, Shaye. From the Maccabees to the Mishnah. Second Edition. London: Westminster John Knox Press, 2006.
SOARES, Dionísio Oliveira. A literatura apocalíptica: o gênero como expressão. In: Horizonte, v. 7, n. 13. Belo Horizonte, 2008. p. 99-113.


[i] Considero todo o século I d.C. ainda como período intertestamental, não afirmando que algum texto do NT tenha sido produzido posteriormente, mas por ter em mente que a consolidação do cânone se dá posteriormente. Ou seja, o NT não existia enquanto livro unificado, embora suas partes existissem e já estivessem se ajuntando de alguma maneira.